Pessoas diferentes fazem a diferença?
3 de setembro de 2020
Qual é a imperfeição que te faria vencer?
4 de setembro de 2020

Qual dor você escolhe?

A maioria dos produtos e serviços servem para resolver alguma dor, ou evitar que ela chegue. Quando compramos um carro queremos praticidade, momentos de lazer, soluções logísticas e independência, e a “dor” de não ter essa série de benefícios faz com que a “dor” de pagar as parcelas se justifique. E em seguida optamos em fazer um seguro, mesmo que doa no bolso, haja vista que ela resolve a dor de não poder comer uma pizza em paz, pensando em como seria o transtorno de ter o carro roubado e estarmos desguarnecidos e garantidos.

Grande parte das escolhas que fazemos ao longo da vida são baseadas nesta equação simples: uma dor menos a outra é igual a felicidade ou satisfação. De forma simples, podemos afirmar que nossas ações cotidianas se constroem a partir desta premissa. 

Uma cansativa viagem de 7 horas, que inicialmente causa cansaço, desgaste e dor é justificada quando o destino vale a pena, um jovem que faz esse doloroso trajeto com a finalidade de rever sua namorada que mora longe, e que há 16 dias não encontra, faz toda a dor e desgaste se explicarem, haja vista que a dor de não vê-la é infinitamente maior, e, portanto, a dor que vale mais a pena é a de seguir viagem. Em contrapartida nos incomodamos com engarrafamento quando temos que ir ao banco ou a farmácia. 

A expressão “foi difícil mas valeu a pena” trata-se basicamente disto, se substituirmos a palavra pena por dor, percebemos que nossas ações e inércias são construídas sobre quais dores podemos suportar ou não. Se determinada atitude nos causa dor, mas é seguida de um benefício maior, e que almejamos, partimos para a ação.

O antigo e desesperador barulhinho do obturador do dentista é enfrentado quando a dor de dente se torna maior que o medo de enfrentar o mesmo. De dor em dor vamos tendo benefícios, justificando escolhas e renúncias. A dor de não comer chocolate se justifica pela dor de não caber na calça jeans que compramos o ano passado. A dor de não saber ameniza a dor de fazer uma pergunta indiscreta. Matar a curiosidade é matar a dor de não saber algo.

Ter a ciência de que a dor, a pena ou o ônus precedem grande parte dos benefícios, nos leva a percepção de como temos feito nossas escolhas, um exemplo corriqueiro disto é a saudade doída do filho que vai estudar fora e que é racionalizada e abraçada pelo fato que a dor de não ver quem amamos crescer e ter oportunidades é certamente muito maior.

Esse cenário comum e familiar fornece inúmeras maneiras de observar como algumas pessoas lidam com a dor, e superam as mesmas baseadas nos benefícios e ganhos. Quantas camisetas que povoam academias de ginástica pelo mundo todo trazem a frase “sem dor, sem ganhos”! A dor do exercício se atenua pelo ganho da forma ou saúde física ideal. Tem também a injeção que dói e nos amedronta e que é aceita ou consentida perante o alívio que ela irá promover, e desta a forma a dor da agulha fica menor e mais aceitável, tendo em vista que a dor na coluna, ou na garganta são maiores e menos suportáveis que a picadinha e a imagem da seringa.

Esse equilíbrio de troca entre ter e suportar para ter, nos proporciona uma outra análise simples, partindo da frase popular: aceita que dói menos.

Muitas vezes procrastinamos ou desistimos de escolhas feitas anteriormente, de projetos ou mudanças porque não aceitamos as dores e penas provenientes deste processo ou etapa que nós mesmos escolhemos. Quando iniciamos um novo ciclo, nos comprometemos como um contrato assinado, e quando reclamamos ou desanimamos mediante as dores embutidas neste processo, é como se assinássemos a folha inteira sem considerar as notas de rodapé que estão em letra miúda.

Tem algumas dores que não são fruto de nossas escolhas, e que mesmo assim temos que passar, como perder os avós ou a nossa própria infância. E nesses dois exemplos a aceitação  também é um remédio universal. Aceitar não é concordar, é saber lidar. E neste sentido, então, que a gente descubra logo quais são a dores que podemos equacionar ou negociar com a vida e quais não podemos.

Aceitar para doer menos significa que devemos olhar para as dores da rotina e dar nome e origem a cada uma delas, e assim poder escolher o analgésico interno que as neutralizará. Quando eu aceito eu me preparo para me curar, sofrer menos, entender a dor e não mais rechaçar. 

Não se pode querer tudo! Minha avó costumava dizer isso, algumas vezes, sobretudo, quando a gente queria o sorvete e o chocolate e ela só podia comprar um dos dois. Na vida adulta “querer tudo” e não acolher as realidades e escolhas é sofrer desnecessariamente por aspectos e situações que nós mesmos escolhemos ou provocamos. É o ter sem renúncias, é almejar um 10 na prova sem ter que passar pelas aulas e horas de estudo. 

Algumas crianças fazem birra no supermercado porque querem o ovo de páscoa maior ou mais colorido, e nós “adultos” fazemos birra porque não aceitamos aquilo que é oriundo de nossa própria busca, passamos, muitas vezes a colocar a culpa no mundo ou nas outras pessoas, por aquilo sentimos.

Metas empresariais e pessoais tem maior chance de sucesso ao passo que as dores e esforços envolvidos na busca estiverem claros e estabelecidos. É mais fácil subir uma montanha íngreme e suportar o vento frio se soubermos o motivo da escalada e nos fixarmos nele para dar cada passo e retomar o fôlego. Quando eu olho o topo, a dor passa a ser um combustível.

Quanto mais eu passo pela dor, mais capacidade eu desenvolvo de passar por ela, sentindo menos e aproveitando a paisagem.

Buscar somente o benefício em tudo que fazemos é como querer dois presentes de uma avó que só pode ofertar um, essa postura é uma receita certeira para a frustração, desistência e paralisação. Amadurecer é adquirir habilidades para lidar com as penas e dores de viver, tendo a ciência que estas mesmas dores poderão nos trazer grandes coisas, como força, aprendizado e resiliência. Aceitar a dor não é se conformar, é poder olhar para ela e ainda assim seguir cantando, mesmo que haja chuva.

Quais as dores que você tem suportado para alcançar seus objetivos?

Quantas vezes a não aceitação já te fez desistir?

Em que parte da montanha você está?

#Dor #Resiliência #Escolhas #Autoconhecimento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *